17 julho 2009

benjamim (1)


a tribo soa com um nome de memória terna, um filho preferido, um irmão pelo qual outro empenha a vida, filho do amor. A tribo que emerge do nome, contudo, é capaz, num relato bíblico bem contundente ( de um tempo em que cada um faz o que acha certo), de praticar algo terrível. Uma mulher ilegítima, de um homem cujo ofício é perto dessas vertentes de sacralidade e poesia, ao retornar, buscada pelo companheiro, de uma estada na casa paterna, precisa pernoitar num vilarejo e é acolhida por um homem que tem três filhas - ela e o companheiro são recebidos e acolhidos nessa casa.

Notando a presença de estrangeiros, homens do povoado exigem que a mulher seja oferecida para abuso de todos. O pai da moça oferece as próprias filhas. São virgens - de melhor qualidade portanto do que a concubina do levita. Não querem: os do povoado, os da tribo de benjamin, nada ternos, querem a mulher do estrangeiro. Querem, podem, têm. E abusam dela por todo o tempo em que o mundo está escuro. Claro o dia, bem cedo, o levita abre a porta e - coisa um pouco estranha - chuta a mão da sua companheira, espera que ela se levante. Mas ela está mesmo morta.

A primeira coisa estranha - e o que pasma - é que toda a história é concebida como 'um ultraje feito ao levita'.

Esse caso de Guibeá me assusta pelo excesso de realidade e atualidade. Nada no mundo coíbe a violência contra a mulher - nada em nenhum lugar. Algumas vezes me parece que só a violência objetiva pode proteger contra a violência. De modo geral, portanto, pessoas que recuam do uso 'ilegítimo' da violência estão inteiramente expostas ao mal.

E eu volto a pensar no problema do levita. Por que é a ele que se atribui o ultraje sofrido? Nada no texto sugere uma ligação profundamente amorosa entre o levita e sua concubina. O texto sugere um relacionamento desgastado, estavam separados e ele vai ao lugar onde ela está e a recupera. O pai da concubina insiste em que o levita fique mais tempo do que ele deve de fato ficar. Como não tem pelo que zelar, fica o tempo que não deve ficar e parte em viagem em um momento em que se expõe a ser alcançado pela desgraça. Mas não calcula isso: busca refúgio em um vilarejo que seja o que se possa dizer naquele momento 'povo de Deus'.


Talvez aí exatamente exista o ultraje.

Mas nada, no texto, soa mais violento à minha leitura do que o modo como a concubina é abordada quando, após ter passado a noite protegido, ao abrir a porta, o levita chuta a mão da sua concubina. Ao perceber que está morta, decide levar o corpo e dividi-lo em partes que sirvam como testemunho da selvageria.

Quanto ao ultraje, talvez tenha alguma ligação com a confiança traída. Estavam no meio do povo eleito. Alguma noção de respeito a limites seria de se esperar ainda que fosse um tempo anterior a uma ordenação social mais rigorosa. Talvez o ultraje tenha também revelado, na sede por justiça que pôde despertar, um sentimento mais vigoroso do que ele pudesse anteriormente calcular ou supor. É um poder provavelmente ligado à perda e à percepção da irreversibilidade de uma ausência que se aloja na vida até o último dia.

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